segunda-feira, 24 de maio de 2021

Sobre o neologismo: motociata

 

 

                Neologismo é quando uma nova palavra é usada na língua, dentro de usas regras existentes, para um fenômeno novo ou, até mesmo antigo. A língua recebe contribuições constantes em seu vocabulário, a mais comum é o estrangeirismo, onde a Língua portuguesa sempre recebeu no final do século XIX, por exemplo, havia o constante uso do Francês em autores como Valentim Magalhães, Olavo Bilac, Joaquim Nabuco e até mesmo uma obra como “A retirada da Laguna” do Visconde de Taunay fora escrita em francês!! Mesmo o modernismo não deixou a língua livre da contribuição estrangeira, assim como no romantismo havia uma influência inglesa também considerável.

                O neologismo possui uma nímia vantagem de revelar as possibilidades criativas da língua, fugindo assim da tradução imediata de termos estrangeiros e nos aproximando do jeitinho brasileiro. Recentemente o Exmo Senhor Presidente Jair Bolsonaro aventurou-se em uma passeata com motociclistas, e logo veio o neologismo motociata, criado pelos participantes.

                O termo motociata é criado com o uso do radical + tema: {mot-} + {-o-}, junto com o sufixo nominal latino {-ata}, que indica porção, coletividade.  Assim surge o neologismo motociata, formado assim por derivação sufixal.  Vale destacar que o termo  moto é formado por uma abreviação vocabular, onde uma parte da palavra conserva o todo, por exemplo: motocicleta – moto e  pneumático – pneu.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Tratamento Precoce e Tratamento Imediato (o Sinônimo Permitido)

 

Os sinônimos não são  perfeitos, por mais semelhantes, carregam diferenças semânticas (sentido) e morfológicas (origem e estrutura), porém, atualmente vemos que alguns termos, aparentemente sinônimos, possuem uma diferença sobre a origem do discurso. Um exemplo são os termos para o tratamento do vírus chinês, onde temos tratamento precoce e, agora, tratamento imediato.

                Pesquisando no “Google” (23/02) o termo tratamento imediato, temos como primeiro resultado um informativo da cidade de Laguna (RS): Sulfato de Hidroxicloroquina: de 12 em 12 horas (primeiro dia). Do segundo ao quinto dia: 1 vez ao dia, associado à Azitromicina (500 mg), uma vez ao dia, durante cinco dias e Oseltamivir (75 mg) de 12/12/horas, durante 5 dias. Já quando colocamos o termo tratamento precoce não temos qual o tratamento e sim várias notícias sobre ilusão do tratamento precoce, porém, o tratamento em si, é idêntico!!

                O mesmo ocorre quando a busca é por imagens no Google, para tratamento imediato, várias fotos com remédio, médico, o anúncio da prefeitura de Laguna; já quando escrevemos tratamento precoce, vemos enganoso, sinais negativos, interrogações, imagens de  Bolsonaro, enfim, uma mudança substancial, como se fossem tratamentos distintos.

                Assim chegamos aos sinônimos proibidos. Diferente do eufemismo, quando atenuamos um termo: passou dessa para melhor, em vez de morreu. O termo tratamento precoce cria uma referência discursiva com o presidente J.M.Bolsonaro, uma referência positiva, algo impensável para alguns setores de comunicação, que preferem adotar outros nomes, a fim de que não exista uma referência positiva ligada ao presidente da república! Mesmo que para isso a busca de informação seja prejudicada.

                (Ricardo Gomes Pereira)


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

A Hipérbole Volta às Aulas

 


A hipérbole é uma figura de pensamento que consiste no exagero proposital de uma expressão, para ressaltar a ideia dessa, criando um apelo dramático, daí o adjetivo hiperbólico para os que exageram. Bastante usada na poesia, nos discursos do cotidiano e na publicidade: “Vou morrer de tanto estudar”, “sua última chance nessa vida de comprar essa TV”, um exemplo na poesia, no heterônimo de Fernando Pessoa: Álvaro de Campos:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

            Essa figura também é muito usada em argumentação, a fim de exagerar a mensagem, causa um impacto, porém, ela também pode apenas anunciar um exagero de descontentes, por exemplo, a PEC (Projeto de Emenda Constitucional) 241 foi alcunhado de PEC do fim do mundo, ela foi aprovada em 2016, bom até agora o mundo está aí! Outro exagero é impor o predicativo de genocida aos governantes, ou, agora no contexto de volta às aulas quem é a favor a volta às aulas está contra a vida!!

            Temos aí um exagero, ofensiva a vida, contra a vida? Há argumentos melhores contra o retorno das aulas, assim como há argumentos favoráveis, porém a hipérbole prejudica o debate, vamos além, prejudica a busca de um consenso, mais além, lembra o garoto da história que gritava contra um lobo inexistente, até que apareceu um verdadeiro e ninguém o socorreu.

(Ricardo Gomes Pereira)


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

A Vacina Vem da Vaca e Não do Jacaré

 


Calma, a palavra vacina é derivada de vaca. Muitas palavras que usamos têm sua origem no latim, buscar essa origem é buscar a etimologia das palavras. Muitas curiosidades surgem,e.g., o nome vem de uma doença e não da cura! Esse conhecimento contribui para que o uso da palavra fique diferente, uma coisa é falar do Alfredo, outra é quando falamos de um conhecido, um amigo chamado Alfredo. Conhecer em profundidade a palavra (origem, forma de composição, classificação) ajuda a conhecer a palavra, tornar a palavra uma amiga.

            O nome científico das espécies é em latim, no caso da vacina sua origem é justamente no nome de uma doença comum em vacas: variolae vaccinae (1.ª declinação) ou varíola da vaca. Essa doença causava enfermidade na pele dos humanos, morte, cegueira e cicatrizes. Um médico inglês Edward Jenner (1749- 1823) teve a ideia de inocular as pessoas com o vírus dessa varíola animal, afinal era mais fraca que a humana, originando assim uma reação que deixava o organismo imunizado contra a temida doença, afinal havia uma história de que os trabalhadores das zonas rurais não pegavam varíola, pois se contaminavam com o animal, que era mais amena.  Assim a palavra começou a significar toda substância produtora de antígenos imunizantes, derivados ou não de vaca, ou até mesmo de jacaré.

(Ricardo Gomes Pereira)

sábado, 9 de janeiro de 2021

O sufixo “aço”: de tratoraço para cagaço


 

Os sufixos são elementos que colocamos no final de algumas palavras, mudando o seu significado, por exemplo, na palavra casa, podemos acoplar o sufixo {-inh-} e teremos casinha, transformamos em um diminutivo, a palavra casa conservou uma parte, ou seja, {cas-} essa parte chamamos de radical. Esses elementos são usados em varias acepções, não aparecem sozinhos e seu uso revela um bom conhecimento do idioma. Os sufixos possuem valores semânticos que indicam carinho, idéias pejorativas e hoje temos um que revela descontentamento popular. O sufixo {-aço} comumente indica aumentativo, também usado de forma pejorativa: ricaço, poetaço, bagaço; porém seu uso adquiriu também um sentido de indignação popular e.g.: panelaço, e buzinaço.

                Temos assim uma contribuição, que conta com a criatividade popular, houve um evento de grupos LGBTQ+ com o nome de “punhetaço”, e também tivemos, recentemente, outro neologismo: tratoraço. Esse último ocorreu em razão de um descontentamento com o governador de São Paulo, João Dória, que pretendia aumentar o ICMS, esse movimento acabou causando uma mudança na política tributária do governo que resolveu não levar adiante a cobrança do ICMS, ou seja, tivemos um cagaço.

(Ricardo Gomes Pereira)

               

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

O Cancelamento e o Casamento da Censura

 



A Língua sempre recebe novas palavras ou modifica o sentido de antigas para acompanhar o desenvolvimento comunicativo das pessoas, desde 2019 há uma palavra que causa certo medo em artistas, trata-se da palavra cancelamento. Essa palavra reflete um fenômeno chamado de cultura do cancelamento, em 2019 foi eleita como palavra do ano no dicionário australiano Macquare, aproxima-se muito do termo boicote, porém o boicote é em produtos específicos, já o cancelamento é não só no indivíduo, como também em sua obra atual e até mesmo posterior. O termo repercute  na literatura também, um exemplo foi o ocorrido com J.K. Rowling, autora de Harry Potter, que foi acusada de transfobia em razão de um comentário que agradou. Outros sinônimos aproximados são: nulificar, extinguir, abolir, cessar etc.

                A palavra não vem sozinha, afinal se o artista se redimir, ele pode ser descancelado, assim aparece o prefixo {dês-}. Muitos artistas populares receberam o cancelamento como Anitta e Gustavo Lima, o cancelamento é caracterizado por um linchamento virtual, que pode atingir parte do público do artista, mais engajado com políticas de esquerda, porém não consegue ser pleno e total. O cancelamento também induz os artistas a terem sua opinião vigiada, criando assim um tipo novo de censura, afinal não se trata de governo a censurar, e muitos que pedem o cancelamento, não são necessariamente fãs e consumidores dos artistas.

                Outro fator negativo, quando o cancelamento tende a adentrar em épocas distintas, por exemplo, Monteiro Lobato sofreu campanhas para cancelamento, ora, a função da obra, sobretudo literária, não é ser um espelho do artista e sim de uma época, o caso de Lobato, entrou o dilema, se não cancela, há de se mudar elementos da obra. A censura abraça o cancelamento em núpcias de ódio, começa a controlar, sobretudo novos artistas, que temem, o cancelamento em seu público incipiente, uma censura eficaz, bem insípida para os que lutam pela liberdade de expressão, criando um terreno tênue, movediço, onde os canceladores de hoje, podem ser os cancelados de amanhã.

 

(Ricardo Gomes)



quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Voto Impresso ou Voto Auditável

 


Alegações de fraude nos EUA, suspeitas de fraudes na Venezuela, a democracia pode ser fraudada? A necessidade de verificar votos é cada vez mais imperiosa. Uma alternativa, sugerida pelo  excelentíssimo presidente Jair Bolsonaro, é usar o  voto impresso, onde a pessoa vota na urna eletrônica, recebe um comprovante e coloca o comprovante em uma urna física, assim os votos podem, posteriormente, passar por uma auditoria. Aqui entra o problema linguístico, em 2015 houve uma Ação Direta de inconstitucionalidade (ADI) que votada em 2018 decidiu que não se deve usar o recurso do voto impresso, assim usar o nome voto impresso, não seria um erro?  Muitos usam o termo voto auditável, como escolher um termo? Acho que a semântica chegou, acabo de ouvir a campainha.

                Não raro o nome de um objeto confunde-se com noções anteriores do mesmo objeto, além disso, há políticos que usam da semântica (sentido das palavras) para confundir, um exemplo ocorrera quando se debatia o projeto Escola Sem Partido de Miguel Nagib que era apenas uma síntese de leis já existentes, mas que transformaram em algo que proibiria debates e pluralidade de idéias. O nome não se reduz a uma questão de marketing, mas também de peroração (onde o nome resume a totalidade da idéia), isso é importante para convencer a população e evitar sofismas.

                Analisando os dois adjetivos mais usuais:  impresso e auditável, é perceptível que há diferenças, sobretudo quando se imagina um púbica alvo lato, com pouca formação, ou formação anoréxica, um público ainda cativo de discursos na grande imprensa, o nome voto impresso, causa uma certa nostalgia e até insegurança, um ministro do STF chegou a dizer que “voto impresso seria um retrocesso é como comprar um vídeocassete” (G1 06/11); percebe-se que o nome “voto impresso” tende a ser de fácil refutação, quando não há compreensão. Já o termo voto auditável, por sua vez, acaba sendo erudito em demasia, o que traz algumas vantagens, entender o nome acompanha o entendimento do que ele sugere no contexto específico, porém a virtude do nome também é seu problema, por ser um termo mais erudito, pouco comum, acaba sendo difícil atingir a população, sobretudo sem o apoio da grande imprensa, que hoje, é quem consegue manipular aquilo que Maingueneau chama de os discursos constituintes (discursos constituintes são formas de expressão e termos que tendem a ser copiados, antigamente eram escritores que realizam tal tipo de discurso, revelando os modelos da boa expressão, atualmente, cabe a grande imprensa ). Um nome diferente para voto impresso, indica uma melhor saída, há alternativas como voto verificado, voto confiável, ou até mesmo voto duplicado, o mais importante, agora, talvez seja compreender que a luta política não prescinde da luta lingüística.

 

 

 

G1 Presidente do STF diz que “voto impresso seria um retrocesso” in: https://g1.globo.com/es/espirito-santo/noticia/2020/11/06/presidente-do-tse-barroso-diz-que-voto-impresso-seria-retrocesso.ghtml acesso em 10/12

 

MAINGUENEAU: Dominique: Discursos constituintes trad. Anail Sobral. São Paulo: contexto, 2006.