Alegações de fraude nos EUA, suspeitas de fraudes na
Venezuela, a democracia pode ser fraudada? A necessidade de verificar votos é
cada vez mais imperiosa. Uma alternativa, sugerida pelo excelentíssimo presidente Jair Bolsonaro, é
usar o voto impresso, onde a pessoa vota
na urna eletrônica, recebe um comprovante e coloca o comprovante em uma urna
física, assim os votos podem, posteriormente, passar por uma auditoria. Aqui
entra o problema linguístico, em 2015 houve uma Ação Direta de
inconstitucionalidade (ADI) que votada em 2018 decidiu que não se deve usar o recurso
do voto impresso, assim usar o nome voto impresso, não seria um erro? Muitos usam o termo voto auditável, como
escolher um termo? Acho que a semântica chegou, acabo de ouvir a campainha.
Não raro
o nome de um objeto confunde-se com noções anteriores do mesmo objeto, além
disso, há políticos que usam da semântica (sentido das palavras) para
confundir, um exemplo ocorrera quando se debatia o projeto Escola Sem Partido
de Miguel Nagib que era apenas uma síntese de leis já existentes, mas que
transformaram em algo que proibiria debates e pluralidade de idéias. O nome não
se reduz a uma questão de marketing, mas também de peroração (onde o nome
resume a totalidade da idéia), isso é importante para convencer a população e
evitar sofismas.
Analisando
os dois adjetivos mais usuais: impresso
e auditável, é perceptível que há diferenças, sobretudo quando se imagina um
púbica alvo lato, com pouca formação, ou formação anoréxica, um público ainda
cativo de discursos na grande imprensa, o nome voto impresso, causa uma certa
nostalgia e até insegurança, um ministro do STF chegou a dizer que “voto
impresso seria um retrocesso é como comprar um vídeocassete” (G1 06/11);
percebe-se que o nome “voto impresso” tende a ser de fácil refutação, quando
não há compreensão. Já o termo voto auditável, por sua vez, acaba sendo erudito
em demasia, o que traz algumas vantagens, entender o nome acompanha o entendimento
do que ele sugere no contexto específico, porém a virtude do nome também é seu
problema, por ser um termo mais erudito, pouco comum, acaba sendo difícil
atingir a população, sobretudo sem o apoio da grande imprensa, que hoje, é quem
consegue manipular aquilo que Maingueneau chama de os discursos constituintes (discursos
constituintes são formas de expressão e termos que tendem a ser copiados,
antigamente eram escritores que realizam tal tipo de discurso, revelando os
modelos da boa expressão, atualmente, cabe a grande imprensa ). Um nome diferente
para voto impresso, indica uma melhor saída, há alternativas como voto
verificado, voto confiável, ou até mesmo voto duplicado, o mais importante,
agora, talvez seja compreender que a luta política não prescinde da luta lingüística.
G1 Presidente do STF diz que “voto impresso seria um
retrocesso” in: https://g1.globo.com/es/espirito-santo/noticia/2020/11/06/presidente-do-tse-barroso-diz-que-voto-impresso-seria-retrocesso.ghtml
acesso em 10/12
MAINGUENEAU: Dominique: Discursos
constituintes trad. Anail Sobral. São Paulo: contexto, 2006.