terça-feira, 27 de outubro de 2020
PIX: Abreviando as Siglas
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
O Radical e a Perseguição: Cristofobia, Misocristia...
Em um recente discurso na ONU, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro,
usou o termo cristofobia, referindo-se à perseguição aos cristãos em vários
países; o termo é pouco usado, mas revela algo que ocorre atualmente e
historicamente com o nome de Cristo.
Os substantivos nomeiam
os seres reais, imaginários, objetos e sentimentos humanos, para isso, eles
possuem um elemento em sua estrutura, nomeado radical, esse elemento sofre
poucas alterações e contribui para uma economia lingüística, contribui para aumentar
o léxico, contribui para o entendimento de um texto, por exemplo, se alguém ler
a palavra chamusco, pode até não saber que se trata de um odor de chama, mas
conseguirá, relacionar com a palavra chama (sem relacionar com o verbo chamar),
por causa do radical e dos afixos (elementos que colocamos junto ao radical).
As palavras com o tempo
recebem muitos afixos, isso contribui para sua atualidade, sabemos também que o
uso das palavras é como um espelho autoritário que reflete o espírito de uma
época (zeitgeist), reflete a cultura, reflete o interior dos falantes. Isso
gera uma busca em mudar termos, há pouco tempo, um termo como macho, tinha uma
carga positiva, porém com as criticas ao machismo, perdeu essa carga positiva.
Vejamos o que ocorre com o
radical de Cristo {Crist-}; desde o início do cristianismo existe uma
perseguição, o martírio dos apóstolos, a perseguição aos cristão em Roma
(CESARÉIA: 2019), governos contra o cristianismo, lutas religiosas, proibição
de culto, etc. Atualmente, esses fenômenos continuam e os termos vão se
acumulando: anticristianismo, anticristão, cristofobia, cristianofobia,
misocristia, guerra cristera, etc. Acumulam-se sufixos ao radical, porém esses
sufixos refletem uma perseguição aos que acreditam e seguem os preceitos de
Cristo. Assim temos por um lado, palavras que são atenuadas, por outro
percebemos que há uma certa denúncia sobre o espírito da época e o uso das
palavras, ou a negação de certas palavras, revelando a aceitação do poder das
palavras.
(Ricardo Gomes Pereira)
Referências
CESARÉIA, Eusébio: História Eclesiástica trad.: Wolfgang Fischer
São Paulo: Fonte Editorial, 2019.
sábado, 19 de setembro de 2020
Linguagem Neutra e Ideologia Ativa
A questão de que a linguagem contém elementos de classe social, ou
opressão patriarcal, ou raça, ou gênero, normalmente, causa discussões e, não
raro, surgem algumas soluções equivocadas. A proposta de linguagem neutra tenta
resolver parte desse problema, mexendo, sobretudo, em substantivos, adjetivos e
pronomes, que são as classes de palavras que nomeiam ou revelam acidentes dos
seres em geral, as questões sintáticas não levarei em consideração aqui.
O nome linguagem
neutra ou linguagem neutra de gênero, ganha adeptos e até escolas chegam a
usar, o que revela a necessidade de ouvir e entender seus princípios, entender
os questionamentos sobre linguagem não binária. Sabemos que a gramática normativa
trata das normas de uma língua, já a linguagem pode ter variações, daí usarmos
os termos linguagem formal e informal. As soluções que surgem, ou hipóteses,
não raro possuem uma ideologia enraizada e precisam exercer uma pressão social
nos falantes, para se adaptarem a certas regras criadas, assim apesar de buscar
neutralidade, há opção ideológica e ignoram que o preconceito não é algo
restrito a palavra em si, e sim as intenções do falante, uma pessoa
preconceituosa não deixará de o ser, apenas por usar um sufixo diferente.
Já na origem de
nossa Língua, o latim, havia nomes neutros, inclusive havia declinações para
masculino e feminino, na primeira declinação do latim predominam nomes
femininos, mas também há alguns masculinos, como nauta,ae ; já na segunda declinação, predominam nomes masculinos.
Lembremos de que no latim não havia artigo, a Língua Portuguesa substitui as
declinações e usa o suporte dos artigos, quando se mexe em uma Língua, devem-se
levar em conta muitos fatores, que vão além do ele, ela e elu. Além disso, a língua possui uma unidade na
variedade, como expressa Celso Cunha (CUNHA: 1981 p.73) onde a linguagem
expressa o indivíduo por seu caráter criativo, mas expressa também o ambiente
social e nacional, por sua repetição e aceitação.
A Linguagem neutra de gênero procura assim criar
uma taxonomia para nomes, que serão repetidos e ensinados nas escolas, logo
teremos meninos, meninas e menines, a opção pelo sufixo {-e} como fator de neutralidade
pode ser funcional em algumas palavras, porém não é uma regra fixa de que os
sufixos {-a} e {-o} indicam somente masculino e feminino, os substantivos
possuem um conjunto de uniformes que são comuns de dois gêneros, sobrecomuns
e epicenos. Vejamos os comuns de dois gêneros, o que faz a sua mudança é
o artigo: o jovem, a jovem, logo, teríamos "jovene?" os sobrecomuns
possuem um só gênero, a vítima, a criança, apesar da terminação em {-a};
finalmente os epicenos, nomes de animais, possuem uma só forma: sardinha, tatu,
crocodilo, etc. Daí podemos entender como a Língua Portuguesa usa os artigos,
para evitar as declinações do latim, logo não adianta mudar o sufixo e não
mexer no artigo, ou simplesmente usar um artigo {ê} ou {ês}: Vi ê menine com ês
colegues, ressaltemos que os artigos também indeterminam os seres, não apenas
indicam gênero.
No caso dos adjetivos também segue o mesmo bonde, muitos são comuns de dois gêneros: feliz, triste, alerta, estudante, etc. No caso dos pronomes há um aumento substancial com a terminação em {-u} ou {-e} delu, elu, aquelu, mesme, sue, pouque, algumes, nenhumes, etc. Essas variações não são muito funcionais e ampliam consideravelmente o campo classificatório, gerando eufonia, cacofonia e confusão, o que pode ir de encontro ao que se deseja. M. Bakhtin (BAKHTIN: 2010 p294) dividia as palavras em três aspectos: como palavra da língua neutra, como palavra alheia e como minha palavra, logo é o papel da experiência discursiva individual que gera o preconceito e não a palavra em si, isolada, ou seja, mudar a forma do discurso, não significa mudar o discurso.
Resumindo: I- A
língua possui neutralidade, a intenção dos interlocutores que gera o
preconceito; II - a terminação não é o fator que caracteriza o gênero e sim o artigo;
III - gênero gramatical é diferente de gênero musical ou gênero literário em
que há vários, ampliar pode gerar mais confusão e cacofonia; IV - dificultará a
linguagem e a comunicação com mais flexões e particípios: alune, aluninhes
ou O aluno estava cansado, A aluna
estava cansada e alune estava cansade e V – a língua possui saídas em seu
próprio sistema para retirar esse caráter binário.
Sobre o último
ponto, a melhor opção, haverá o uso da própria gramática, o entendimento da
metalinguagem (infelizmente houve um paulatino afastamento do estudo gramatical
nas escolas) assim haveria como deixar o uso menos “binário”, com menos marcas
de gênero! E.g.:
Os alunos conversaram com o diretor da escola.
ou
Discentes conversaram com a autoridade escolar.
Vale ressaltar
que as questões como eufonia serão deixadas para as próximas gerações e que o
uso dessa linguagem também necessita da aprovação do interlocutor, ou seja,
como a pessoa quer ser tratada, o que não retira do enunciador o suporte
ideológico, os indivíduos adequariam seus discursos, mas continuariam ou
aumentariam seu preconceito, sobre essa questão do discurso social ressalta
Fiorin: Seu dizer é a reprodução inconsciente do dizer e seu grupo social. Não
é livre para dizer, mas coagido a dizer o que seu grupo diz (FIORIN: 2000
p.42). Essa busca de harmonia comunicativa é algo plausível, porém há o cuidado
em exigir neutralidade apenas para se adequar aos próprios princípios
ideológicos, ou “identitários”, quem manipula as palavras quer manipular o
mundo.
(Ricardo Gomes Pereira)
Referências Bibliográficas:
BAKHTIN, Mikhail: Estética da criação verbal trad. Paulo Bezerra. 5.ª ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010.
CUNHA, Celso: Língua Portuguesa e realidade brasileira. Col. Temas de todos os tempos vol.13 8ª ed. Rio de Janeiro ed. Tempo Brasileiro, 1981.
FARACO, Carlos Emílio & MOURA, Francisco Marto de: Gramática 3.ª ed. São Paulo Ed. Ática: 1988.
LAU, Diego Hélinton: O USO DA LINGUAGEM NEUTRA COMO VISIBILIDADE E INCLUSÃO PARA PESSOAS TRANS NÃO-BINÁRIAS NA LÍNGUA PORTUGUESA: A VOZ “DEL@S” OU “DELXS”? NÃO! A VOZ “DELUS”! Simpósio Internacional em Educação Sexual, 2017 Universidade Federal do Paraná. Disponível em http://www.sies.uem.br/trabalhos/2017/3112.pdf acesso em 19/09/2020.
FIORIN, José Luiz: Linguagem e Ideologia 7.ª ed. São Paulo Ed. Ática: 2000
sábado, 29 de agosto de 2020
Qual o Coletivo de Zumbis?
A tradução de jogos eletrônicos nem sempre é fácil, há o cuidado de ser preciso e não cair no estrangeirismo, além disso, podemos encontrar vários problemas relacionados ao léxico, um bom exemplo é o jogo zumbi tsunami onde o próprio título traz dois estrangeirismo, o primeiro (zumbi) é um africanismo das línguas nigero-congolesas “Nzumbi” que significa duende, cadáver, já a palavra tsunami vem do japonês onde {tsu-} porto e {-nami} onda. O que nos importa é a palavra zumbi, que entrou em nosso léxico e é bem explorada pela influência que exerce em filmes, seriados e jogos.
O jogo zombie tsunami possui estágios ou desafios, em uma das traduções está o termo horda de zumbis, onde o coletivo de zumbi virou horda. Coletivo é o nome que damos a uma das divisões dos substantivos, ou seja, quando o substantivo se refere a uma coleção de seres da mesma espécie, os coletivos se dividem em específicos, aplicam-se a uma só espécie: matilha, boiada, arquipélago, etc; indeterminado, aplicam-se a diversas espécies, bando de aves, bando de crianças, etc; e numéricos, quando exprimem número exato: par, centena, dezena, etc. Muitos coletivos usamos sem notar como álbum, atlas, alfabeto, entretanto é difícil escolhe coletivos para palavras que historicamente não possuem.
O coletivo específico de cadáver é mortualha, que figurativamente também pode se referir a pessoa sem vida; porém os zumbis são cadáveres com vida! Daí a opção pelo coletivo indeterminado horda, que faz parte de um bom número de coletivos que se referem a multidões de maltrapilhos e desordeiros, por exemplo, caterva, farândola, malta, súcia e corja. Sem dúvida a palavra horda não ficou mal, agora é só fazer essa horda de zumbis, devorando cérebros!!
(Ricardo Gomes)
Referências:
BECHARA, Evanildo: Moderna gramática portuguesa. 37. Ed.. Rio de Janeiro: Nova Cultural, 2009.
CEGALLA, Domingos Paschoal: Novíssima gramática da Língua Portuguesa. 34. Ed. São Paulo: Companhia Nacional, 1991.
COUTINHO, Ismael de Lima: Pontos de gramática histórica. 7. Ed. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1976.
quarta-feira, 19 de agosto de 2020
O Vocativo e o “Snowclone” na Globo News
![]() |
O Vocativo é um termo acessório que serve para pôr em evidência o ser a quem nos dirigimos: Amai, amigos! Ele possui vírgula e não mantém nenhuma relação sintática com outro temor, por exemplo, em Amai, amigos! Não posso dizer que meninos é o sujeito da oração, o mesmo ocorre em Amigos, peçam paciência a Deus. Nesse casso amigos é o vocativo. Recentemente aconteceu uma confusão com o vocativo envolvendo um jornalista da Globo News, quando usou a expressão: é o pobre, estúpidos.
Na linguagem escrita é fácil reconhecer a intenção de um vocativo, afinal há vírgula, na oralidade temos o tom da voz (tessitura) e podemos usar gestos, pois bem, para muitos o jornalista Octávio Guedes, ao comentar o bom desempenho do presidente Bolsonaro em uma pesquisa no nordeste, acabou por ofender o povo nordestino, ao usar a sentença é o pobre, estúpidos, no momento em que justificava o aumento de votos do governo nessa região. De fato, a ausência de vírgulas e atentar para tonalidade de voz é algo complicado, porém o jornalista faz uma referência a um determinado bordão da língua inglesa (bordão: sentença repetida sempre) e comum em comentários de economia, em um fenômeno chamado de “snowclone” um neologismo que começa a circular e faz referência a esse tipo de construção em inglês: It`s the economy, stupid; que é um exemplo de gerador do discurso do jornalista, uma referência a uma sentença do marqueteiro político James Carville, usado na eleição de Clinton (EUA - 1992).
Em português temos exemplos de snowclone é semelhante ao que chamamos de ditado, bordão, jargão ou clichê jornalístico, vejamos um exemplo imaginário com o Inês já é morta:
- Vamos embora, agora, Inês já é morta.
- Você vai ao enterro dela?
Esse é o problema desse tipo de construção, exige do interlocutor o conhecimento do ditado e saber que ele pode ser aplicado em vários contextos, nesse caso um deles não sabia dessa referência literária a Inês de Castro decapitada no séc. XIV; daí o termo snowclone, há várias palavras para descrever a neve, assim se faz um clone da neve. O jornalista fazia uma referência comum, porém para o público amplo, o vocativo acabou virando um adjetivo, ou adjunto adnominal, não era a intenção de Octávio Guedes ofender nordestinos, mas, um dia da caça.....
( Ricardo Gomes)
segunda-feira, 20 de julho de 2020
As preposições e o vírus chinês
A preposição é uma palavra que não tem variações de plural, nem de gênero, mas possui em si noções relacionadas ao sentido. Assim temos: falavam com pudor, falavam de pudor, falavam sem pudor. As preposições (com, de, sem) conseguem mudar a relação entre as palavra, o que exige um contexto específico, mas também cria confusões específicas.
Uma confusão, ou problema de trato com a informação, ocorreu com a prefeitura de Porto Alegre. A prefeitura publicou em sua conta no twitter o 196º óbito de paciente com coronavírus, porém no final da nota duas informações geraram um certo conflito: exame positivo para coronavírus e paciente com linfoma. Um parente da pessoa referida entrou em contato, pelo próprio twitter, alertando que a referida pessoa não morreu por causa do vírus chinês.
A prefeitura então respondeu usando duas preposições diferentes: em nenhum momento dissemos que foi DE corona, mas COM corona. Nesse caso as preposições, de fato, indicam coisas distintas, morreu De corona (preposição indica causa). Morreu COM corona ( preposição indica companhia) é o que chamamos de valores semânticos da preposição.
Claro que fica a dúvida de contabilizar DE e COM, ou seja, a prefeitura contabiliza quem morre pela causa e com o vírus! Podemos perceber que as preposições e seus valores semânticos continuam a causar conflitos.
(Ricardo Gomes)



